O Cristianismo e os missionários das estatísticas

O Cristianismo e os missionários das estatísticas

O que faz um missionário? A resposta pode parecer óbvia, mas nem sempre. Missionário fala do amor de Deus, acolhe necessitados, faz discípulos, ora e… contabiliza números. Sim, estatísticas fazem parte do chamado de um grupo de missionários que desenvolve pesquisas relevantes sobre o estado do Cristianismo e os avanços da obra missionária.
De 29 de setembro a 01 de outubro, trinta e dois convidados participaram da Consulta Brasileira de Pesquisa Missionária, em Atibaia (SP). O evento, organizado pela AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras), discutiu a importância deste trabalho, avaliou metodologias e reafirmou a necessidade do missionário manejar os números, sem se esquecer do valor das pessoas por trás deles. Um dos preletores principais da consulta foi Todd M. Johnson, diretor do Centro de Estudos do Cristianismo Global (Center for the Study of Global Christianity – CSGC) no Seminário Teológico Gordon-Conwell, nos Estados Unidos.

Duas constatações fundamentais sobre o Cristianismo

Todd é um dos editores de uma das obras recentes mais abrangentes sobre o Cristianismo no mundo: o Atlas do Cristianismo Global (Atlas of Global Christianity), o primeiro em nível acadêmico a documentar a transição nos últimos cem anos (1910-2010) do Cristianismo para o chamado Sul Global. Todd trouxe duas constatações fundamentais sobre o Cristianismo atual:

1) A fé cristã está sendo descolonizada (cresce mais na África, na Ásia e na América Latina do que na Europa e nos Estados Unidos). “O maior projeto sobre Cristianismo hoje é o processo de descolonização ou de ‘retradicionalizá-lo’”, disse Todd. Ele acrescenta: “o Cristianismo não deveria se parecer tão Ocidental, já que o crescimento maior acontece no Sul Global. Missões não é estender o nosso quintal. O trabalho missionário novo tem que ser nativo, indígena”.

2) Somos muito fragmentados. Há cerca de 45 mil denominações cristãs no mundo. Um dos efeitos concretos desta fragmentação é que não somente não juntamos esforços, mas prejudicamos o avanço missionário. “90% de todo trabalho missionário é de cristãos tentando alcançar outros cristãos. Se as denominações querem alcançar a si mesmas, isso não é bom. Há duplicação de esforços”.

Tendências e desafios do Cristianismo

A Consulta também deu espaço para olharmos para as tendências e os desafios atuais do Cristianismo. Listamos a seguir alguns deles:

– Enfraquecimento da América Latina: Em 2010, a América Latina (23,9% de todos os cristãos) representava a segunda maior força do Cristianismo, ultrapassada apenas pela Europa (25,6%). Mas a tendência é que a África e a Ásia ultrapassem a Europa e a América Latina no cenário global.

– Crescimento por nascimento: De 2009 a 2010, o Cristianismo teve um crescimento líquido em torno de 28 milhões de pessoas (subtraindo a perda total de 37,4 milhões do ganho total de 65,2 milhões). Só que a maioria deste acréscimo é porque a pessoa “nasceu” cristã. 45.2 milhões nasceram em famílias cristãs e 16 milhões se tornaram cristãos porque experimentaram uma experiência de conversão.

– Recursos concentrados: Mesmo que 64% dos cristãos estejam no chamado Sul Global, só 34% da renda estão lá.

– Cristianismo renovado: os movimentos de renovação carismática são um fenômeno único. Entre 1970 e 2010, eles cresceram 4 vezes mais que a taxa de crescimento da população mundial. A expectativa é que em 2020 os movimentos de renovação cresçam duas vezes mais rapidamente que o Cristianismo Global e a população, e passem a representar 27,8% de todos os cristãos.

– Perfil da força missionária: o mundo exigirá que as equipes missionárias sejam mais multiculturais. Há um fenômeno da “uberização” (alusão ao aplicativo Uber), onde missionários são enviados para campos transculturais sem passar pelas agências missionárias.

Não só o Cristianismo

Uma das tendências mais importantes no campo das religiões é o crescimento do Islamismo. Nos últimos cem anos, a religião de Maomé cresceu de 12,6% para 22,4%. Se somarmos as duas maiores religiões – Cristianismo e Islamismo – em 2020 elas já serão a maioria da população (57%) e em 2100 chegarão a 66%.

“Quando enviamos missionários do Ocidente para o Oriente Médio, levamos a ideia de que ‘estamos enviando Deus para o Oriente Médio’. Isso tem efeito sobre qual o nosso papel. Na verdade, Deus nasceu lá, e nunca saiu de lá”, disse Marcos Amado, missionário especialista em Islamismo, fundador do Centro Martureo e um dos coordenadores da consulta. “A maior desafio para a missão global é diálogo entre as culturas”, afirmou Todd.

E o Brasil?

A Consulta também contou com a participação de pesquisadores brasileiros que apresentaram dados sobre o avanço missionário em nosso país. Alisson Medeiros, da JUVEP, fez um resgate histórico da presença cristã no Brasil. Ele lembrou que depois do tratado do comércio e navegação em 1810, a evangelização ganhou mais condições para se expandir. “Se o século 19 foi o grande século das missões, o 20 foi o século pentecostal”.

Alisson também destacou o grande crescimento da igreja evangélica nos últimos 30 anos. No Censo de 2010, os evangélicos representavam 22,2% da população. “Se formos considerar a nossa taxa de crescimento, podemos estimar que, agora em 2015, temos mais de 53 milhões de evangélicos.

Alisson ainda apresentou estatísticas dos que para ele são os principais desafios missionários do momento: indígenas (340 etnias ; 121 não alcançadas), sertanejos (cerca de 6 mil comunidades rurais sem o evangelho), ciganos (há de 800 mil a 1 milhão, mas há apenas 46 missionários trabalhando, destes 22 em tempo integral), quilombolas (2.474 comunidades reconhecidas pelo Governo. Outras pesquisas identificam cerca de 5 mil comunidades; quase metade são comunidades não-alcançadas) e ribeirinhos (há cerca de 30 mil comunidades ribeirinhas, mas 10 mil não foram evangelizadas).

Como fazer uma pesquisa?

A consulta também discutiu as metodologias para se fazer pesquisas. A pesquisadora Gina Zurlo trabalha no CSGC e apresentou os desafios para se iniciar uma pesquisa sobre religiões. Segundo ela, somente metade dos censos no mundo perguntam sobre a religião dos entrevistados. “Se você perguntar qual a religião da pessoa, você pressupõe que todos tenham uma, o que exclui os ateus. Outra opção é perguntar qual a etnia dele. Etnicidade e religião andam muito próximas e isso ajuda a fazer pesquisa onde etnia e religião caminham juntas, como, por exemplo, na Somália”.

Gina também abordou outras limitações para se fazer um censo religioso, como:
– As pessoas se sentem à vontade para serem honestas ao responder?
– Quem é o entrevistado? Ele é ilegal? O estudo da demografia deveria incluir a todos.
– Selecionar respostas a partir de uma lista fixa gera o perigo de excluir religiões menores, como aconteceu no Reio Unido com uma religião indiana.
– Fazer suposições étnicas e religiosas pode tornar o resultado artificial.

Autocríticas

Um dos painéis da consulta reuniu quatro pesquisadores (Gina, Ademir Menezes, André Brunetto e Lourenço Kraft) num momento de autocrítica. Eles evidenciaram alguns pontos a serem melhorados no trabalho de pesquisa missionária, em específico, no Brasil.

Segundo Brunetto, que trabalha para o Projeto Brasil 21, precisamos melhorar na gestão da comunicação. “Precisamos aperfeiçoar o processo de uso e compartilhamento das informações e criar um contexto organizacional favorável para a disseminação das pesquisas”. Para Kraft, o pesquisador tem uma grande responsabilidade e precisa saber qual a relevância de sua pesquisa. “Precisamos gastar tempo na tarefa de fazer pesquisas. Temos que estar dispostos a trabalhar. A periodicidade e a frequência de nossas pesquisas precisam ser melhoradas, porque precisamos ter condições de projetar o futuro a partir das pesquisas”, aconselhou Kraft, que morou muitos anos no Brasil, mas agora vive na Inglaterra. “Quero encorajá-los a olhar as metodologias de outras pessoas. Não há motivos de reinventar a roda”, ressaltou Gina. “Geralmente, as informações que temos não são dadas de forma direta. O pesquisador precisa ter esta percepção”, pondera Ademir, que desenvolve pesquisas na Amazônia.

Mais que números

A Consulta também contou com três momentos devocionais. Eles destacaram a importância de enxergar o pesquisador como um ser humano integral e que seu chamado é legítimo diante de Deus e de sua missão.

Marcos Amado lembrou que devemos cuidar da nossa vida interior. “À medida que olhamos para as estatísticas e grupos éticos, precisamos guardar o coração”. Para André Souza, da MEVA, um pesquisador tem que saber avaliar e agir, mas também precisa ter compaixão. “Quando penso num pesquisador, é assim: com pés sujos, não num escritório. Precisamos andar entre as pessoas”. Wellington Barbosa, da Missão Kairós, ressaltou que assim como Jesus e seus discípulos, precisamos aprender a trabalhar em equipe. “Que não tentemos impressionar o Senhor com o nosso serviço. Deus poderia ter feito tudo sozinho, mas ele nos chamou para fazer parte da equipe dele”.

E agora?

Os pesquisadores brasileiros que participaram da Consulta saíram com o compromisso de criar um centro de pesquisas missionárias no Brasil que possa unir pessoas, organizar metodologias e fazer com que as igrejas locais se apropriem das pesquisas desenvolvidas.

Todos os compromissos e os passos propostos serão incluídos na carta da Consulta, que ainda está em fase de redação e deverá ser disponibilizada ao público até o fim deste mês.

A Consulta Brasileira de Pesquisa Missionária foi organizada pela AMTB, em parceria com o Movimento Lausanne, o Centro de Reflexão Missiológica Martureo e a SEPAL. Ultimato participou como uma das convidadas.

Fonte: Ultimato

Texto: Lissânder Dias Do Amaral