Inspire-se e celebre o Dia da Reforma ao ler um texto de Antônio Carlos Costa, extraído do livro “Uma nova reforma: Após 500 anos, o que ainda precisa mudar?

Por Antônio Carlos Costa, extraído do livro “Uma nova reforma”, Ed. Mundo Cristão

Na minha consciência, não reina a lei, duro tirano e carrasco cruel, mas Cristo, o Filho de Deus, o rei da paz e da justiça, o dulcíssimo Salvador e Mediador que conservara a consciência alegre e pacifica, na sã e pura doutrina do evangelho e no conhecimento desta justiça passiva.¹

Martinho Lutero

Revelar ao mundo um Cristo doce foi, acima de qualquer dúvida, a maior contribuição da Reforma Protestante para a felicidade da humanidade. Com Lutero, aprendemos a chamar Cristo pelo nome: Jesus, Jeová é salvação. O homem e emancipado dos terrores da Lei, dos golpes da consciência, dos ardis da religião, da ameaça do inferno, do pavor da morte. Fim da fobia de Deus.

A doutrina da justificação pela fé é a principal portadora dessa mensagem irracional, surpreendente, inédita. De tão maravilhosa, torna-se objeto de tentação. A razão, a religião, a Lei, o mundo, o diabo e a consciência se levantam no seu protesto contra um Deus insuportavelmente condescendente para com o pecador que se arrepende e crê.   

O locus classicus da justificação pela fé encontra-se em Filipenses 3.2-9, passagem das Escrituras para a qual gostaria de chamar a sua atenção. De certa forma, o protestantismo inteiro está nela. O texto começa: “Acautelai-vos dos cães! Acautelai-vos dos maus obreiros! Acautelai-vos da falsa circuncisão!” (v. 2). O apóstolo Paulo declara que jamais deveria haver espaço na igreja para o pregador que não proclama a doutrina da justificação pela fé. Esse era o caso desses a quem chama de “cães”, “maus obreiros” e “falsa circuncisão”. Não existe desgraça maior para o homem do que estar exposto à influência de um mau obreiro.   

“Não existe desgraça maior para o homem do que
estar exposto à influência de um mau obreiro.”

Sua mensagem pode ser comparada ao latido do cachorro bravo. O que ele faz é latir, latir, latir. É o ministério do medo, da ameaça, da perturbação. Cristo é transformado em Moisés, a Lei em caminho de redenção, o evangelho em meta de desempenho. O homem tira os olhos do menino Jesus mamando no seio de Maria para divisar, horrorizado, o Sinai pegando fogo.

Ele é um mau obreiro por não cumprir a finalidade da pregação, que é declarar para a pecadora pega na cama em adultério e trazida para dentro do templo pela religião a fim de receber a sentença condenatória: “Onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou? Nem eu tampouco te condeno. Aproprie-se desse amor perdoador e viva na beleza da gratidão, fruto do favor imerecido”. 

Não se pode medir os danos causados por esse pequeno Moisés à vida da igreja. Cada culto é uma sessão de terror. Jovens ficam de cabelos brancos antes do tempo. O comportamento neurótico se espalha pela igreja como epidemia. Cristo passa a ser visto como Satanás.   

O mau obreiro também é chamado de proclamador da heresia chamada “falsa circuncisão”. Ele declarava que o gentio tinha de se tornar judeu para entrar no reino de Cristo. Pregava a Cristo, ao mesmo tempo, dizia que sem Moisés não haveria salvação. Ele não negava a Cristo. Falava sobre o nascimento virginal, os milagres, a morte, o sepultamento, a ressurreição e a ascensão aos céus. Contudo, não pregava Cristo como único e suficiente Salvador. Dizia que o homem é salvo por imitar Jesus, em vez de declarar que o homem é salvo por crer no Cristo que fez pelo homem o que este não é capaz de fazer para salvar a si mesmo.    

O texto continua: “Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne” (v. 3). Para cada obra do Espírito Santo, existe uma falsificação satânica. Há o verdadeiro arrependimento, há o falso arrependimento; há a verdadeira paz espiritual, há a falsa paz espiritual; há a verdadeira conversão, há a falsa conversão. Nesse sentido, o apóstolo Paulo declara que há a falsa circuncisão e há a verdadeira circuncisão. O que caracteriza a circuncisão genuína?   

O verdadeiro talho que o Espírito Santo faz no coração humano tem como característica levar quem foi objeto de tamanha transformação espiritual a adorar a Deus no Espírito. Esse vê excelência em Deus, a quem contempla na beleza da sua santidade. Nessa relação há encanto, louvor, poesia. O evangelho o faz ver Deus não apenas como autoexistente, infinito, imutável, único; mas também como doce, amável, misericordioso, gracioso, perdoador, leal. Essa adoração é no Espírito. Movida por Deus. Fruto da revelação da beleza divina por meio do evangelho no poder do Espírito Santo.    

O evangelho o faz ver Deus não apenas como autoexistente,
infinito, imutável, único;
mas também como doce, amável, misericordioso,
gracioso, perdoador, leal.

Não há dúvida de que o apóstolo Paulo está falando sobre a verdadeira religião. A vida de Deus na alma. A real circuncisão. A cicatriz deixada pelo Espírito Santo no coração. A marca eterna, indelével. Não há mais como banalizar o sagrado. Fazer poesia para Deus agora faz sentido para a alma.    

Mas não apenas isso. “… nos gloriamos em Cristo, e não confiamos na carne”. O novo nascimento tem como característica a humildade de espírito. Não há mais espaço para o homem se gloriar na carne. Ele não se orgulha, baseando sua salvação em desempenho humano (jejuns, orações, vigílias, esmolas, amor, obediência). Usando o português da rua, ele “não tira onda” com a sua performance espiritual. Ele ignora esses espantosos feitos.    

Sua alegria, seu maior prazer, o esteio da sua esperança é Jesus Cristo. Em Cristo, ele identifica um sacrifício mais excelente. Ele exulta em Cristo por não mais precisar contabilizar seus créditos a fim de saber se está em condição de comprar o perdão. O que faz o crente sossegar quanto à esperança da sua salvação não é a lágrima derramada no momento da oração, mas o sangue derramado no grande dia da redenção. Nossos sentimentos mudam dez vezes ao dia! Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre..

Saiba mais!

O artigo que você acaba de ler é um trecho do capítulo “O Cristo da fé protestante”, escrito por Antônio Carlos Costa no livro “Uma nova reforma: Após 500 anos, o que ainda precisa mudar?”, lançado pela Editora Mundo Cristão. A obra reúne reflexões de escritores e pensadores de variadas linhas do protestantismo brasileiro, formando um mosaico rico e plural sobre a situação da igreja na atualidade. Conteúdo publicado no site da Sepal com autorização.

Vários autores. Uma nova reforma: Após 500 anos, o que ainda precisa mudar? São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2017). p. 21-24. Trecho selecionado: Texto de Antônio Carlos Costa: O Cristo da fé protestante.


¹ Citação ao início do artigo: Martinho Lutero, Obras selecionadas, vol. 10 
(São Leopoldo: Concordia/Sinodal, 2008), p. 35. 

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