Por Diogo Militão

Surpresas inesperadas podem nos desestabilizar, mas compreender a situação faz toda a diferença. Aprendi isso de forma inusitada—com a picada de uma lacraia na Tailândia.

Certa vez, enquanto morávamos na Tailândia, saímos para passear – eu, minha esposa e nossa cachorra. Calcei minhas sandálias e, ao dar o primeiro passo fora de casa, senti uma dor insuportável. Olhei para baixo e vi uma lacraia, tão grande quanto meu pé, que acabara de me picar.

No susto, chutei o inseto para longe, protegendo minha esposa e nossa cachorra, e voltamos imediatamente para casa. Meu pé sangrava, inchava rapidamente e latejava com uma dor absurda. Assim que entramos, ainda meio atordoados, só consegui dizer: “Procura no Google! Foi uma lacraia!” Não era o mais prudente ou confiável, mas, dadas as circunstâncias, era o que podíamos fazer.

Eu sabia que lacraias são venenosas, mas não tinha ideia da gravidade daquela situação, especialmente por estarmos na Tailândia. Será que as espécies daqui eram mais perigosas? Enquanto a dor me fazia pensar no pior, minha mente já imaginava o hospital mais próximo – ou a falta dele – e todos os desdobramentos possíveis. Em outras palavras: “Será que eu vou morrer?” – Eu já podia ver a notícia no jornal: “missionário morre picado por inseto na Tailândia…” (nossa mente consegue ser tão criativa, não é mesmo?)

No Google, digitamos algo como: “Lacraia Tailândia adulto mata?” A resposta foi algo do tipo: “Taquicardia, possível febre, dor intensa, infecção local, sudorese, mas só é fatal se a picada for próxima ao coração ou pescoço.” Naquele momento, por incrível que pareça, RELAXEI. A dor, o inchaço e o sangue continuavam, mas agora eu sabia o que estava acontecendo. A partir do momento em que identifiquei a causa, consegui me regular. Ou, como eu disse pra minha esposa, já que eu não vou morrer, dá pra gente ficar tranquilo!

Com essa clareza, começamos a agir: lavei a ferida, coloquei gelo, tomei um medicamento para aliviar os sintomas, mandei mensagens para a família explicando o que tinha acontecido, desmarquei reuniões do dia seguinte e fiz o necessário para lidar com aquela situação. Não era mais uma ameaça desconhecida, mas algo concreto, algo com que eu podia lidar. Havia algo que podia ser feito.

Essa experiência me ensinou algo que vai muito além de uma picada de lacraia. Muitas vezes, na nossa jornada, especialmente no contexto missionário, somos lançados no caos. Enfrentamos situações que nos desestabilizam completamente, nos deixando sem saber o que fazer, como agir ou até mesmo como orar. Às vezes, nem conseguimos pedir ajuda de forma específica porque sequer entendemos o que está acontecendo. Em outros momentos, simplesmente aceitamos o desconforto como parte inevitável da vida ou até pensamos que nosso valor no ministério está diretamente ligado ao quanto sofremos.

No entanto, existem formas de nos prepararmos e nos regulamos diante do desconhecido.

  1. Uma delas é buscar informações concretas sobre o que podemos enfrentar. Se estamos indo para um novo país, podemos aprender sobre seus desafios culturais, seus sistemas de saúde, os riscos comuns e como mitigá-los. Se estamos assumindo uma nova função ministerial, podemos conversar com aqueles que já passaram por essa experiência, entender os desafios típicos e nos equiparmos melhor. O conhecimento não elimina o caos, mas nos dá ferramentas para atravessá-lo com mais segurança. É sobre normalizar para regular.
  2. Além disso, ter pessoas de confiança ao nosso redor faz toda a diferença. Mentores, colegas mais experientes ou até mesmo amigos que possam nos lembrar do que é essencial ajudam a trazer clareza quando estamos sobrecarregados. Ou pessoas com quem podemos conversar e que possam nos entender simplesmente pelo fato de já terem passado por algo semelhante. Às vezes, uma simples conversa pode nos dar um novo olhar sobre uma situação que parecia impossível de resolver. Não estamos sozinhos, e reconhecer isso é um passo essencial para lidar com o caos.
  3. Outro ponto crucial é a prática do autocuidado. Muitos missionários se veem presos a uma rotina intensa, sem espaço para descanso e reflexão. No entanto, ignorar nossas próprias necessidades não nos torna mais eficazes, mas sim mais vulneráveis. Criar momentos de pausa, reconhecer nossas limitações e cuidar do nosso bem-estar físico, emocional e espiritual não é um luxo, mas uma necessidade.
  4. E, em meio a todo esse preparo e busca por compreensão, é fundamental deixar espaço para a ação do Espírito Santo. Ele nos surpreende no meio do caos, nos dá discernimento e nos sustenta quando as respostas não vêm tão rapidamente quanto gostaríamos. A fé não anula a necessidade de planejamento e sabedoria, mas nos lembra que, mesmo quando tudo foge do nosso controle, ainda estamos nas mãos d’Ele.

Eu tenho a tendência de querer programar tudo, cada reunião, cada saída, cada coisa e, durante muito tempo, eu tinha certo orgulho de ter a agenda “cheia”. Mas um belo dia percebi que 1) eu estava constantemente frustrado quando não dava conta de um item da agenda, e 2) eu não estava dando espaço, ou margem, para ser surpreendido por Deus. Como vou olhar para aquilo que o Pai me oferece no dia a dia se estou com os olhos fixos na minha agenda?!

Quero te encorajar a parar para normalizar o que está acontecendo em sua jornada. Não apenas deixar as coisas acontecerem ou viver no caos como se nada pudesse ser feito. Quando algo é bom, celebre, agradeça, reconheça. E, quando algo é doloroso, permita-se lamentar, compartilhar, buscar ajuda, chorar.

Normalizar o que acontece conosco é um ato poderoso. Ajuda a trazer clareza e, muitas vezes, a dar os primeiros passos para lidar com a situação, mesmo que o caos ou as incertezas não desapareçam por completo.

Normalizar para regular, para respirar fundo, para perguntar a Deus: “com quem posso contar para lidar com isso?”, ou “com quem posso compartilhar isso?”, ou “como posso celebrar isso?”, ou até “o que o Senhor está querendo me ensinar?”.

Quem sabe não seja tão simples quanto um pouco de gelo na picada da sua “lacraia”?

Esse texto foi reproduzido  inicialmente no site https://antesdoide.com.br/encontrando-clareza-no-meio-do-caos/. Agradecemos ao nosso missionário que cedeu o mesmo para este blog também.

Diogo Militão é um missionário SEPAL, Terapeuta Clínico natural do Brasil, com ampla experiência em trabalho missionário transcultural desde 2004 e em cuidado de missionários desde 2017. Ele já atuou na África Ocidental, Ásia Central e Sudeste Asiático, e atualmente reside na Espanha com sua esposa, Débora. Diogo fez parte da equipe clínica do The Well International, na Tailândia, e é apaixonado por capacitar missionários latino-americanos e igrejas emergentes enviadoras com os recursos e a linguagem necessários para um cuidado de membros eficaz. Junto com alguns colegas, Diogo está ajudando a estabelecer o CIMA em Málaga, Espanha — um centro de cuidado dedicado a apoiar obreiros latino-americanos. Ele é graduado em Terapia Clínica pela UNIFOR-Brasil, possui uma pós-graduação em Aconselhamento Pastoral pela FTSA-Brasil e um mestrado em Member Care pela All Nations University, no Reino Unido.