“A velhice não é para os fracos”. A afirmação é do famoso evangelista Billy Graham, contrapondo uma visão bastante frequente que coloca a velhice como sinônimo de debilidade. Para algumas pessoas, talvez, velhice nem esteja na lista dos assuntos mais importante para serem discutidos na igreja. Aliás, quantos idosos e idosas há na sua igreja local e como esse público é tratado?
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), estamos vivendo a Era do Envelhecimento (1975 a 2025). Um estudo aponta que o envelhecimento populacional é um fenômeno novo na humanidade. Os velhos são a parcela da população que mais cresce no mundo. Até meio século atrás, a expectativa de vida beirava os 50 anos e atingir a terceira idade era proeza. Hoje, é cada vez maior o número de pessoas acima dos setenta anos e os centenários quase dobraram no Brasil em uma década. A ONU estima que em 2050 um em cada quatro brasileiros será idoso e já se fala de uma “Quarta Idade”.
A Bíblia está repleta de versículos que falam sobre a velhice. Provérbios 16.31 diz: “O cabelo grisalho é uma coroa de esplendor, e obtém-se mediante uma vida justa”. Salmos 37.25 afirma: “Já fui jovem e agora sou velho, mas nunca vi o justo desamparado nem seus filhos mendigando o pão”. E um dos mais conhecidos, Salmos 92.14, traz uma mensagem de esperança: “Mesmo na velhice darão fruto, permanecerão viçosos e verdejantes”.
Para falar sobre o assunto, conversamos com Jasiel Botelho e Marcelo Gualberto. Os dois já passaram da casa dos sessenta, têm uma extensa experiência com missões e igrejas, especialmente trabalhando com a juventude, e agora experimentam os desafios do envelhecimento. Jasiel conta que sente o isolamento em relação ao público mais jovem e Marcelo critica igrejas que esquecem seus pastores quando eles envelhecem. Os dois falam dos sonhos e projetos que ainda querem desenvolver e do cuidado que as igrejas precisam dispensar aos pastores, líderes e missionários idosos. Confira o bate-papo.
O que significa para você estar no grupo da terceira idade e como você lida com o envelhecer?
Jasiel Botelho – Talvez, por causa do meu temperamento extrovertido, brincalhão e muito positivo, eu não senti o impacto de entrar na terceira idade. Eu senti este impacto da crise aos setenta anos, idade em que o pastor é jubilado na Igreja Presbiteriana. Houve uma cerimônia em Brasília, onde eu recebi um diploma e medalha e foi uma festa, mas depois eu entrei em crise. Era como se eu tivesse passado o bastão e agora não sabia o que ia fazer. Lembrei do que Paulo diz e pensei: “Acabei a carreira e guardei a fé, agora vou esperar a morte”. A jubilação para mim foi como uma cerimônia fúnebre. Eu ainda estou lidando com essa fase da minha vida, me sentindo como um marinheiro de primeira viagem, sem saber muito como agir, reconhecendo cada dia as minhas limitações e, por outro lado, amadurecendo espiritualmente, reconhecendo os meus defeitos e erros, tentando construir o ministério de terceira idade. Tenho me dedicado ao aconselhamento de pastores mais novos, num programa de discipulado via WhatsApp, onde eu e uns dez pastores nos encontramos toda semana, para orar, estudar a palavra e conversar sobre ministério e a vida pessoal. Mas ainda sinto que estou numa crise para saber o que Deus tem para mim nessa terceira idade.
Marcelo Gualberto –Tenho lidado, razoavelmente, bem. No início foi difícil. Contudo, agora, com a ajuda da terapeuta, sinto-me mais tranquilo. Só tenho motivos de gratidão a Deus. Estar com 65 anos significa que estou tendo a oportunidade de passar por todas as fases da vida. Não queremos morrer e nem envelhecer. A ideia é morrer jovem o mais tarde possível.
Salmo 92 diz: “Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos”. Quais frutos uma pessoa idosa pode dar?
Jasiel –Eu me sinto privilegiado porque trabalhei com a pregação do evangelho e o ensino da Palavra através de um instituto bíblico e de um seminário que plantei, na missão Jovens da Verdade. Sou privilegiado porque ainda posso trabalhar com a cabeça, com a palavra, posso ler, escrever e estou fazendo um doutorado. Também tenho usado as mídias sociais e tudo isso me possibilita continuar dando frutos que, às vezes, o missionário ou o pastor, que não desenvolveu seus dons além de pregar no domingo, terá dificuldade. O pastor que fica idoso não é mais disputado entre as igrejas. Então, ele não vai receber convites para pastorear porque a igreja prefere pastores novos. Eu senti isso no meu ministério itinerante. Com o passar do tempo foram diminuindo os convites para palestras e cursos, acredito que em função da minha idade. Acredito que isso que eu estou tentando fazer é continuar dando frutos e que eu não venha me aposentar da obra missionária e do reino de Deus – no reino de Deus não existe aposentadoria.
Marcelo – O principal fruto é a sabedoria para poder ensinar os mais novos. Tenho que descobrir o meu lugar e o meu papel. Os moços podem e os velhos sabem. Tenho que viver cada fase com a sua beleza ou feiura.
O pastor Hernandes Dias Lopes diz que “os velhos precisam ter sonhos”. Você sonha? Quais são os seus sonhos?
Jasiel –Não sei quantos anos Deus ainda tem para mim. Então, na terceira idade, tenho feito uma interrogação para Deus perguntando o que Ele quer de mim. Eu tenho sonhado em fazer uma rede de aconselhamento e mentoria para pastores e escrever alguns livros, mas a idade tira um pouco de vigor para transpiração. Eu tenho os cinco por cento de inspiração, mas não tenho os noventa e cinco de transpiração. Outra coisa para a qual tenho sido desafiado é a política. Ano passado me candidatei a vice-prefeito da nossa cidade, Arujá, e foi uma experiência diferente porque eu saí da bolha evangélica e fui conhecer os cidadãos da cidade. Agora estou orando e pensando em me candidatar a deputado estadual para ver se é uma porta ministerial que se abrirá. Fora isso, sonho em ver meus netos crescerem, ver meus filhos realizando ministério – tenho dois filhos pastores – e a esperança de que Deus me dê mais uns dez, quinze anos de vida produtiva com uma boa saúde até o dia final.
Marcelo – Sim, sou movido a sonho. O sonho é o oxigênio da minha alma. A pessoa que deixa de sonhar começa a morrer. O sonho é para o ser humano o que o oxigênio é para o organismo. A vida não continua sem sonho. Sonho em publicar vários livros. Sonho em ver um milhão de jovens convertidos e consagrados a Deus nos próximos vinte anos.
O que a igreja precisa saber sobre os idosos?
Jasiel –A igreja é uma família, mas muita gente não pensa assim. A igreja virou uma instituição e se dividiu em departamentos. Eu gostaria que a igreja fosse como num aniversário ou como no Dia dos Pais, quando reunimos toda a família e temos uma celebração, com churrasco, bolo, festa, música, oração e a pregação da Palavra. A igreja deveria ter mais consciência que igreja é uma reunião com o “Pai Nosso”, com o nosso irmão mais velho, Jesus, e com todos os outros, idosos e crianças. Tudo bem que poderiam ser feitos trabalhos especializados para cada faixa-etária, mas o culto precisa ser nessa visão que é para todos. Hoje, temos cultos só para jovens, praticamente. A igreja que é jovem quase não tem idosos, algumas nem idosos tem. Claro, nós pertencemos a um modelo antigo de igreja, mas, de qualquer maneira, acredito que a igreja deveria dar mais atenção aos idosos em termos de música, programação, e desafiar os idosos a realizarem alguma coisa, como lazer, passeios, turismo. Também penso que a igreja deveria se preocupar em cuidar dos idosos, em termos de saúde, e pensar onde eles vão terminar os seus dias.
Marcelo – A igreja precisa aproveitar a sabedoria dos idosos. Eles precisam ser ouvidos e suas opiniões levadas a sério.
Qual a responsabilidade da igreja local para com seus pastores e líderes que envelhecem e se aposentam?
Jasiel –As denominações deveriam ter uma preocupação com a aposentadoria dos pastores. Quando eu entrei no presbitério, cada pastor só podia participar da reunião se trouxesse a contribuição da aposentadoria. No começo eu achei ruim, mas hoje vejo que foi uma benção porque eu pude me aposentar com pouco, com um salário-mínimo, mas já é uma ajuda. Se pudesse, hoje eu contribuiria com mais, para ter uma aposentadoria maior. Infelizmente, muitos pastores, líderes, missionários e igrejas não se preocupam com isso, que deveria ser algo obrigatório. Também acho que a igreja ou a denominação deveria se preocupar com uma casa de repouso para os pastores idosos. Eu conheço uma denominação cuja liderança tem a preocupação não só com a aposentadoria do pastor, mas com a viúva do pastor, com uma ajuda financeira. Essa denominação tem um local que acolhe idosos em casos que a família do pastor ou líder não tenha como cuidar do seu idoso.
Marcelo – Nossa justiça tem que exceder a justiça dos ímpios. É vergonhoso ver o abandono que muitos pastores sofrem por parte de denominações históricas quando são jubilados. Empresas seculares fazem mais pelos seus funcionários do que igrejas.
Que conselho você gostaria de ter recebido na sua juventude?
Jasiel –Eu tive uma boa juventude e não posso reclamar. A desvantagem foi que eu perdi meu pai com doze anos de idade. Eu passei minha juventude sem o meu pai e passei minha vida procurando um homem que fosse meu pai. Existia um buraco paterno na minha juventude, que foi ocupado aos dezessete anos de idade quando eu me converti e preenchido no seminário quando entendi que Deus era o meu pai, o “Aba Pai”. Eu gostaria de ter aprendido a falar inglês. Para o pastorado é muito importante que o pastor saiba inglês. Tive a oportunidade, mas não dei o valor necessário. Sou um pouco frustrado por não saber música, gostaria de tocar teclado, piano ou violão, mas não tive alguém que me incentivasse a estudar música, inglês, a ler mais e ter uma biblioteca. Na parte emocional eu tive uma boa orientação da missão que eu trabalhava. Eu diria para o jovem, hoje, ter cuidado com os sentimentos e a paixão. É muito importante o jovem encontrar alguém que seja temente a Deus e que tenha o real objetivo de formar uma família.
Marcelo – Muitos. Queria que alguém tivesse me aconselhado a me importar menos com a opinião pública, principalmente a opinião pública evangélica; queria que alguém falasse comigo sobre cuidados com o meu corpo; precisava ter ouvido sobre relacionamento conjugal, etc.
O que mais o anima e o que mais o incomoda nas novas gerações?
Jasiel –A reclamação que eu tenho é que o jovem não quer ouvir mais a experiência. Eu sei que o idoso pensa que sabe tudo, repete as histórias e fala muito. A tendência é que o idoso seja rabugento. Eu tenho consciência disso e tento mudar, mas mesmo assim eu sinto o isolamento por parte da juventude. Até os sessenta anos eu era convidado e muito aceito pela juventude em muitos congressos. Mas hoje, aos setenta anos eu sinto que há um afastamento e um isolamento por parte dos adolescentes e dos jovens comigo.
Marcelo – O que mais me anima é capacidade criativa, sede de Deus e domínio da internet. O que mais me desagrada é o pouco conhecimento bíblico.
Um conselho para os pastores e líderes jovens.
Jasiel – Mais que teologia, estude a palavra de Deus, a Bíblia. É preciso ler, conhecer e estudar a palavra de Deus, os evangelhos e a vida de Jesus. Tenham uma mentoria com um líder ou um pastor mais velho, para um acompanhamento na sua vida, nas áreas sentimental, profissional e ministerial. A competitividade e a luta ministerial levam os pastores a ficarem isolados, por isso é muito importante manter as amizades que fazemos na juventude porque na velhice vai ser a única coisa que resta, além de Deus e Jesus. Cuidem do casamento para a esposa se tornar a melhor amiga e você chegar na velhice com a primeira esposa – só perder se ficar viúvo.
Marcelo – Saiba que em qualquer situação ministerial, sempre alguém será abençoado. No Senhor, o nosso trabalho não é vão.
Um conselho para os pastores e líderes que estão se aproximando da velhice.
Jasiel –Aconselho a ler livros sobre como envelhecer bem. Ter sua casa própria – o pastor jovem acha que está em vantagem se mora na casa pastoral porque não paga aluguel, mas, num certo sentido, isso é uma armadilha porque enquanto ele está produtivo, ele pode financiar um apartamento, quando ele fica velho não tem mais as mesmas vantagens para fazer um bom negócio. Pensar mais no futuro, na aposentadoria e no sustento. Imagine que quando o pastor se aposenta, a denominação não vai sustentá-lo até o resto dos seus dias e se ele morrer a viúva não recebe nada. Eu aconselho também a ter uma outra profissão, outra fonte de renda que não seja só a igreja. Os missionários têm essa dificuldade – passam quarenta anos no campo missionário, depois quando voltam a agência missionária não os mantém mais, então ele vai depender do sustento dos familiares ou fica sem sustento. Ter um bom plano de saúde. Alguns amigos meus envelheceram sem a preocupação do plano de saúde. É claro que nós temos o SUS, mas se puder ter um plano de saúde será melhor.
Marcelo – Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. O que passou, já era. O futuro é incerto. Vivamos o hoje!
Jasiel Botelho,75 anos, casado com Ivone Botelho há mais de 40 anos. É pastor presbiteriano jubilado, fundador da Missão Jovens da Verdade. Jasiel e Ivone são missionários da Sepal.
Marcelo Gualberto,65 anos, casado com Vânia há mais de 40 anos, tem três filhas e seis netos. Diretor Nacional da Mocidade Para Cristo (MPC) no Brasil.
Por Phelipe Reis | Jornalista e colaborador de conteúdo para o site Sepal.




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