Notebooks, tablets e smartphones parecem ocupar cada vez mais espaço em nossas vidas. Esses artefatos tecnológicos nos possibilitam acessar um universo de conteúdo, nos conectam com pessoas de qualquer lugar do mundo. Estão presentes mediando nossas relações, seja entre casal, na família, com amigos e com os irmãos e irmãs da igreja.
Naturalmente, essa mediação tecnológica traz implicações e desafios para a vida da igreja e para o exercício pastoral, como foi bastante observado na pandemia, quando igrejas foram empurradas para adentrarem no mundo da virtualidade, a fim de manterem suas atividades e estabelecerem contatos com a membresia.
Quais os benefícios e os perigos que esse tipo de mediação tecnológica impõe para as igrejas e para os pastores? A tecnologia substitui o contato físico, o abraço, o olho no olho, o toque e a presença? Como as igrejas e os pastores podem fazer uso dessas tecnologias sem enfraquecer a vivência em comunidade? Para refletir sobre essas perguntas, conversamos com três pastores: Igor Miguel, Jony Wagner de Almeida e Luiz Fernando dos Santos. Confira o bate-papo.
Nossas relações estão cada vez mais mediadas por artefatos tecnológicos. Quais as implicações disso na vida da igreja e no exercício pastoral?
Igor Miguel – Relações mediadas por artefatos tecnológicos e culturais não é uma novidade da sociedade da informação do século 21. A escrita alfabética, por exemplo, é um artefato cultural, uma tecnologia criada pelos fenícios. O mundo e as relações sofreram profundas transformações com sua criação. O próprio Deus, de acordo com a narrativa bíblica, se deu a conhecer a seu povo e esta revelação está registrada de maneira textual. A igreja antiga fazia amplo uso de comunicações telepresenciais por meio de cartas. A Reforma Protestante fez amplo uso da imprensa (recém-criada) para espalhar suas ideias e novas traduções da bíblia. O uso de tais recursos não é, em si, nenhuma novidade para a igreja e para o exercício pastoral. Por isso, não temos que pressupor, logo de início, que tais artefatos sejam um problema para o ministério cristão e a igreja local.
Jony Almeida e Luiz Fernando –É possível entender que chamadas de vídeos e outros espaços cibernéticos se tornaram uma nova versão auxiliar do pastoreio e é possível pastorear assim, sempre nessa condição de um auxílio e nunca de substituição.
O aconselhamento virtual é uma tendência que veio para ficar?
Igor Miguel – Não tenho dúvida. Penso que temos que superar o uso de “virtual”. A virtualidade pressupõe uma falsa realidade, uma falsa presença. Na verdade, o uso de uma interface digital permite uma presença real, quando somos intencionais e engajados no encontro. Percebi na intensa vivência que tenho com o aconselhamento on-line, que este formato tornou o gabinete muito mais acessível e aproximou muitas pessoas do cuidado pastoral. Com o relaxamento, voltamos ao gabinete presencial, porém, sem desfazer do formato online. Hoje, tenho dois dias de atendimento pastoral regulares durante a semana. Um para atendimentos on-line e outro para atendimentos presenciais. O formato híbrido veio para ficar, principalmente, quando o membro considera como é econômico e seguro não ter que se deslocar até o local do atendimento. Penso que é um formato inevitável.
Jony Almeida e Luiz Fernando –Sim, mas não de forma absoluta, sim para casos pontuais e especiais. A boa notícia é que os geograficamente distantes e isolados podem ser atendidos razoavelmente de forma virtual.
E quando o pastor fica mais confortável em frente às telas do que olhando nos olhos das “ovelhas”. Isso pode acontecer? O que fazer?
Igor Miguel – Nunca pensei nisso. No meu caso é justamente o contrário. O atendimento on-line me deixa bem mais cansado. Ele demanda mais energia e mais engajamento, justamente para se evitar uma abordagem “virtual” do encontro nesta modalidade. Não quero fazer aqui uma qualificação de qual modalidade é melhor. A meu ver, são apenas modalidades diferentes. Dependendo da complexidade, prefiro um encontro pessoal. Mas, já abordei assuntos muito complexos no formato online e o resultado foi muito similar aos encontros presenciais. Claro, o pastor tem que ser muito cuidadoso com a qualidade do seu equipamento, isso ajuda muito na abordagem. Uma boa webcam e um bom microfone ajudam muito na diminuição de “ruídos” que podem promover maior experiência de realidade do que a falsa experiência de virtualidade que queremos evitar.
Jony Almeida e Luiz Fernando –Uma conversão digital sempre será necessária, tanto para as ovelhas como para o pastor. Isso significa que o pastor, o conselho e os amigos mais próximos sejam capazes de se alertarem mutuamente de uma possível “idolatria tecnológica”. Os membros em geral também precisam cuidar dessa idolatria, por meio da amizade e palavras pastorais. Nunca será possível trocar o relacionamento e a proximidade física com as “ovelhas” pela mediação maquiada das redes sociais.
A tendência é que as mídias e a tecnologia ocupem cada vez mais espaço em nossas vidas. Existe algum caminho para não sucumbir a isso?
Igor Miguel – O filósofo reformado James K.A. Smith, em sua série Liturgias Culturais, é muito feliz quando afirma que artefatos não são neutros, eles correspondem a certas visões de mundo e da realidade. Não dá para fazer um uso ingênuo desses artefatos. Muitos deles se tornaram ferramentas de controle comportamental, há crescente tecnologia de inteligência artificial e algoritmos trabalhando para que certos hábitos sejam detectados e certos produtos e desejos sejam estimulados. Há uma complexidade muito grande aqui, temos que produzir mais reflexões sobre o tema. Uma teologia da tecnologia. Não há um problema, repito, nas novas tecnologias, mas carecemos de sabedoria e inteligência cristãs para lidar com tudo isso. Por outro lado, tais recursos podem cooperar para aproximar as pessoas da experiência e vivências presenciais do culto cristão que só são plenamente desfrutadas na igreja visível e local. As igrejas precisam, se já não fizeram, encarar a comunicação por essas mídias como um ministério, talvez, precisemos de uma diaconia e até uma pastoral de comunicação que produza, de forma intencional, narrativas que comunicam o evangelho e que convide pessoas a viverem uma vida cristã presencial saudável.
Jony Almeida e Luiz Fernando –Valorizar a vida fraterna em comunidade. Valorizar a comunidade como um espaço para ricas experiências de amor fraterno, trabalho cooperativo, solidariedade, mutualidade cristã. Nunca a vida simples e rotineira da comunidade se fez tão necessária como agora.
Que tipos de atividades as igrejas locais e os pastores podem promover para fortalecer os vínculos entre os membros da comunidade?
Igor Miguel – Um púlpito forte, isto é, que seja teologicamente profundo, cristocêntrico, bíblico e em linguagem contextualizada. O púlpito é vital para a saúde da igreja. O púlpito impacta todo os outros ministérios auxiliares. O púlpito é profecia, voz do Espírito pela Escrituras Sagradas, e os ritmos de uma igreja local, seus ministérios, serão sempre impactados pela pregação fiel, cristocêntrica e bíblica. O púlpito é vital. O púlpito aproxima as pessoas de uma história, uma narrativa, que as convida a querer mais e estar mais perto de quem crê nas coisas que ela crê. Ela assim, se aproximará dos pequenos grupos, do aconselhamento pastoral, dos programas de discipulado, da escola bíblica, dos projetos de misericórdia e missões da igreja local. Pastores, não subestimem o púlpito de vossas igrejas.
Jony Almeida e Luiz Fernando –Não precisamos inventar a roda, apenas fazê-la girar. Quem perdeu espaço na pandemia foram os eventos e o ativismo religioso. Cultos cativantes, onde a palavra e os sacramentos são valorizados, reuniões de oração fervorosas, com espaço para escuta, confissão e acolhimento do outro e sua realidade e o discipulado intencional são mais que suficientes para dinamizar a vida da igreja.
Em que a tecnologia supera o contato humano presencial? Em que a tecnologia nunca vai superar o contato humano físico?
Igor Miguel – A formação cristã é corporal e não cognitiva. Por corporal entendo a integralidade da existência. Não somos cérebros, somos pessoas integrais e corpóreas. As tecnologias têm grande poder de formar a imaginação, mas elas não conseguem fornecer uma experiência de imersão total e corpórea da adoração cristã como ela acontece na experiência coletiva do culto presencial. Os sorrisos, as interações, as vozes uníssonas, os gestos dos pregadores, a ação de receber os elementos da ceia, o cumprimento imediato ao irmão, as despedidas na saída do culto e até os comentários ao pé do ouvido da esposa sobre a palavra, fazem parte desse belíssimo cenário litúrgico que nos forma. O culto presencial continuará sendo insubstituível. Ainda é o melhor formato de vivência e adoração comunitárias. Nas cartas bíblicas, vemos que seus autores, apesar de escreverem conscientes de que aqueles escritos teriam enorme impacto sobre inúmeras comunidades cristãs, sempre expressavam desejo de estarem pessoalmente com os irmãos. Isso sempre era abordado em um tom de muita alegria.
Jony Almeida e Luiz Fernando –Penso que potencializa na medida em que é um espaço que aponte, provoque e apresente a vida da Comunidade como o lugar onde de fato as coisas aconteçam em torno da palavra e da mesa. Aqui, o lugar dos sacramentos é imprescindível, pois não é possível, não há legitimidade em celebrá-los virtualmente sem correr o risco de fazer uma caricatura da vida da igreja.
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Igor Miguel, pastor na Igreja Batista Esperança, Belo Horizonte, Minas Gerais.
Jony Wagner de Almeida, pastor na Igreja Presbiteriana de Viçosa, Minas Gerais.
Luiz Fernando dos Santos, pastor na Igreja Presbiteriana de Itapira, São Paulo.
Por Phelipe Reis | Jornalista e colaborador de conteúdo para o site Sepal.




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