Dinheiro é um daqueles assuntos sensíveis de tratar na igreja. Em torno dele há posições extremadas, conceitos deturpados e casos de escândalos. Algumas igrejas evitam até tocar muito no assunto para não serem mal interpretadas. Mas é impossível deixar de abordar um tema que está presente na vida de todo mundo. A própria Bíblia não se omite. A Palavra de Deus não só menciona o dinheiro, como também nos ensina a maneira correta de lidar com ele. Talvez, o grande desafio seja examinar corretamente as Escrituras para compreender a abordagem mais adequada sobre o tema.

Neste artigo queremos refletir a respeito dos nossos conceitos e postura na administração do dinheiro que Deus coloca em nossas mãos. Matheus Ortega, autor do livro Economia do Reino (Thomas Nelson), aponta quatro perfis cristãos para lidar com a administração do dinheiro. Segundo ele, são perfis que se complementam e revelam o reino de Deus.

Além de escritor, Matheus é artista e mestre em Desenvolvimento Internacional pela London School of Economics. Ele trabalha desde 2010 com projetos sociais e em projetos de desenvolvimento sustentável com prefeituras e órgãos internacionais como o Banco Mundial e ONU Habitat. Conversamos com o Matheus sobre como surgiu a ideia de escrever um livro sobre riqueza e pobreza, o que podemos aprender acerca do assunto com personagens da história do Cristianismo, como a riqueza pode contribuir para a missão da igreja, casos de corrupção no meio evangélico e teologia da prosperidade. Vale a pena conferir o bate-papo.

O que motivou você a escrever um livro sobre riqueza e pobreza?

Matheus Ortega – Eu tive experiências em minha vida em que vi a extrema pobreza de perto, como depois do terremoto devastador do Haiti em 2010, e em que vi a extrema riqueza, como quando conduzi um ex-prefeito em uma visita de negócios à Londres. E algumas perguntas que nunca deixaram minha mente eram: como pode alguns terem tanto e outros tão pouco? Como um cristão deve lidar com a riqueza e com a pobreza? Qual meu papel no mundo para revelar o Reino de Deus?

Depois de anos de estudo, encontrei respostas muito interessantes a estas perguntas, que apresento no livro ‘Economia do Reino’. Aprendi que somos diferentes para entendermos as necessidades uns dos outros; e é nesse abismo entre o rico e pobre, o culto e o analfabeto, o empresário e o missionário, que há um terreno fértil para florescer o amor cristão.

No seu livro você apresenta quatro perfis cristãos para lidar com a pobreza e a riqueza. Quais são eles?

Matheus Ortega – Ao estudar sobre visões cristãs aparentemente muito contrastantes sobre riqueza e pobreza, deparei-me com quatro perfis bíblicos diferentes. O doador crê que seu papel é usar recursos terrenos para ser generoso. O moderado pensa que deve cuidar dos recursos com mordomia e viver em contentamento. O transformador busca lutar em prol da igualdade e da justiça social. O abnegado crê que deve renunciar a bens materiais para viver na dependência de Deus.

Nenhum desses perfis é superior aos demais. Necessitam uns dos outros e cada um deles cumpre uma função específica. Enquanto uns dão, outros vão; enquanto uns planejam, outros executam; enquanto uns cuidam, outros transformam. E o mais incrível: eles não são contrastantes, mas sim complementares ao revelarem juntos o Reino de Deus.

Quais personagens na história da Igreja têm muito a nos ensinar sobre riqueza e pobreza?

Matheus Ortega – É fascinante o estudo sobre riqueza e pobreza na História do Cristianismo. Há lições diferentes e valiosas nos textos de Pais da Igreja, como Clemente de Alexandria (150-215), Cipriano de Cartago (210-258), Basílio de Cesareia (330-379), Ambrósio de Milão (340-397), João Crisóstomo (347-407), Agostinho de Hipona (354-430), dentre outros. A história da Igreja é interessante porque às vezes a via principal era o caminho da pobreza (como Francisco de Assis na Idade Média), às vezes o caminho da riqueza (como o protestantismo norte-americano), com várias outras opções no meio. Essa diversidade aponta à uma resposta multifacetada sobre o assunto. Sem olhar a história da Igreja e a diversidade de caminhos e dons na Bíblia, o risco é cair em extremos e acabar desprezando aqueles a quem Cristo não desprezou.

Em níveis de organizações e estruturas, a riqueza tem mais atrapalhado ou ajudado a Igreja cumprir sua missão?

Matheus Ortega – Não acredito que o problema seja a riqueza, mas sim o coração não estar em Deus. Temos muitos exemplos na Bíblia de pessoas ricas que não colocaram sua esperança nas riquezas e viveram pela fé – Abraão, Cornélio, Zaqueu, Joana, etc. Cito aqui as palavras de Clemente de Alexandria para responder a esta questão: “A riqueza é a ferramenta, não o artesão. Não devemos culpar algo que é neutro, que não traz em si mesmo nem bem, nem mal. Sendo seres humanos, temos a habilidade de decidir de que forma vamos usar o que nos tem sido dado. Por isso, não devemos nos lamentar por termos posses, mas, sim, destruir as paixões da alma que nos impedem de usar a riqueza sabiamente.”

Vez ou outra, aparecem nomes de denominações ou líderes evangélicos envolvidos em casos de corrupção. Como podemos ensinar sobre algo que está sendo frequentemente manchado com maus exemplos?

Matheus Ortega – É justamente pelo fato de haver tanta corrupção, confusão e extremos no ensino sobre riqueza e pobreza na Igreja Evangélica que devemos falar sobre o assunto. Precisamos ter um olhar Cristocêntrico sobre o tema. Isso significa combater o individualismo (o eu antes de tudo), materialismo (as coisas valendo mais que pessoas) e o triunfalismo (o ganhar é o ápice). Significa buscar ser mais parecido com Jesus. É apenas assim que podemos falar de assuntos tão complicados e complexos como esse.

Quais são os principais problemas que você observa no meio evangélico com relação a administração de dinheiro?

Matheus Ortega – Cristianismo não é sobre fazer o que é certo para ganhar uma recompensa. Me parece que o principal problema do ensino cristão hoje sobre dinheiro é a ideia da retribuição. Fazer, merecer e ganhar. Os heróis da fé praticaram a justiça e foram obedientes até a morte, mas “nenhum deles recebeu o que havia sido prometido” (Hebreus 11:39). Abraão não viu sua descendência como a areia do mar. Moisés não entrou na terra prometida. Como diz Thomas à Kempis, “todos querem alegrar-se com Ele, mas poucos desejam com Ele sofrer. Onde se encontrará alguém disposto a servir a Deus sem procurar uma recompensa?” Enquanto estivermos servindo a Deus por recompensas, não vamos entender o real significado que é ser um cristão.

A teologia da prosperidade é o maior problema no púlpito evangélico quanto ao ensino na área de finanças?

Matheus Ortega – Muitos criticam a teologia da prosperidade, e de fato ela tem questões problemáticas, como seu foco não-bíblico no materialismo e individualismo. Mas toda crítica é limitada; ela vai até um ponto e para. A questão que precisa ser respondida e ensinada é: como então devo viver de forma bíblica e cristocêntrica quanto ao dinheiro? Essa pergunta é mais difícil de responder. Muitos apontam quais não são os caminhos cristãos; meu desafio tem sido falar sobre quais são os caminhos cristãos de lidar com o uso de recursos com o olhar na eternidade.

Seu livro tem chegado a muitos lugares e pessoas. Você tem se surpreendido com a repercussão? Qual a principal mensagem que você espera transmitir com sua obra?

Matheus Ortega – Sou muito grato a Deus por estar levando essas ideias para tanta gente. Estou sim surpreendido com o impacto que essas ideias têm gerado em pessoas. A principal mensagem que tenho buscado transmitir é que para além da polarização esquerda/direita, das diferenças entre doutrinas e denominações cristãs, estaremos todos juntos um dia em um Grande Banquete. Por isso, cabe a cada um de nós identificarmos o seu propósito no Corpo, para que juntos, revelemos ao Reino de Deus aqui neste mundo.


Por Phelipe Reis | Jornalista e colaborador de conteúdo para o site Sepal.